sábado, 14 de junho de 2008

Maquiagem da vida. Que cor ela tem?

Por Luis Augusto

Tinta branca no rosto, sobrancelhas em destaque de preto, uma camiseta com listras em branco e preto, chapéu feito de coco, um clássico suspensório e a calça preta meio amarrotada. Assim ele é visto todos os dias, no centro da cidade.
A cidade é tão grande e sem piedade. Difícil entender como ela não o engole. Talvez engula. Naquele momento bem humorado, ele pula, traça rápidos movimentos, fazendo graça e gestos gozados e arranca alguns sorrisos das pessoas que aos pouco o rodeiam.
Naquele espaço, pelo mímico passa um mundo de pessoas. Tantos olhares, diversidade: ricos, pobres, estudantes, advogados, executivos, padres, ladrões, comerciantes, gente que não tem nada e muita gente que acha que tem tudo. Quando formam uma grande roda à sua volta, ele se sente mais querido, aplaudem e, no momento em que ele passa o chapéu feito de côco, deixam cair nele uma coisa que já não lhe faz mais falta.
O coração daquele lugar é uma loucura, a multidão se apodera das ruas, todos têm muita pressa e dinheiro a perder. Este artista não. Continua no mesmo lugar, impassível e alheio a toda correria, sereno. Ele apenas dá conta de seu trabalho. Nem uma das pessoas que passa por ali consegue imaginar como pode ser seu rosto coberto por aquela maquiagem preta e branca, pesada. Muito menos conhecer seu nome, sua moradia, sua família, sua biografia. Permanente gringo.
Seu nome é Oliveto Ollivier, morador de um bairro pobre, se abriga em um cortiço. A cozinha é apertada, mal cabem duas pessoas e os poucos móveis que ali estão, dorme em um quartinho abafado onde com ele ficava a mulher e um filho pequeno. Por vezes resolve não ir para casa. Vai ao bar, tira a maquiagem, e quando se reconhece no espelho, o primeiro sinal que ele vê é a cicatriz na testa, marca de uma antiga briga, dia em que bebeu demais, então pede uma dose de pinga e uns dois maços de cigarros. Depois pede outra dose e outra e outra.. Por fim, quando chega ao seu cortiço, a mulher “compreende” e o coloca na cama, onde a noite irão passar junto ao filho. No dia seguinte, ao despertar, Oliveto chora escondido, feito uma criança com medo do “monstro do armário”.
No tempo de infância, ele dizia que quando fosse maior seria galã de filmes. Neste tempo os amigos de Oliveto estavam deslumbrados com os grandes craques do futebol. Dizia mais, seria astro e beijaria todas aquelas mulheres, teria muito dinheiro para poder fazer todas as coisas que a situação social em que vivia não o permitia fazer, sua imaginação o empolgava tanto que chegava a pensar como se fosse o dono do mundo. Vivia nos cinemas lá do centro. Não tinha dinheiro, mas era muito próximo do bilheteiro que deixava entrar na surdina. Mas a criança cresceu, seus sonhos continuaram sonhos e hoje é um homem ainda em busca do que pensava do seu futuro.
A realidade o leva novamente para o centro da cidade, o dever de levar para casa, mesmo que ainda pouco, o que comer. A maquiagem já faz parte da sua pele, e agora vai fazer mímica e fingir. Não se considera um bom mímico. Pensa, "Se fosse, eu seria artista de cinema". Existe algo em seus olhos que a máscara de tinta não oculta. Um brilho fosco, este que denuncia toda uma vida despedaçada, desacreditado de tudo. Porém, nem uma das pessoas que cultua a efervescência diária, no centro da cidade, tem conhecimento disso. Para toda essa gente, Oliveto é só um mímico, mais um artista de rua. Descrente, mas para ele isto basta.
Oliveto Ollivier hoje tem 63 anos, o filho foi embora com a mãe para Portugal junto com os avós. Desde então Oliveto tem notícias da família apenas no Natal e por carta. Com muito custo e depois de muita mímica conseguiu montar uma bancada onde tem os instrumentos de chaveiro. A bancada fica em um espaço entre a parede de uma barbearia e o muro de um edifício residencial no centro da cidade, bem ao lado do bar onde ele sempre se banha e ainda toma suas doses de pinga acompanhadas de vários maços de cigarro.

Travessa Intendente Gravatá


Por Fábio Junio

A cidade de Coronel Fabriciano chega aos 60 anos com a responsabilidade de ser a primeira do Vale do Aço, região que se desenvolveu economicamente por ser rota da estrada de ferro Vitória-Minas. Atualmente, é considerada uma das principais vias de escoamento da produção siderúrgica de Minas Gerais.
Uma zona metalúrgica formada por pessoas que vieram fazer a história da jovem, porém, promissora região. Estes carregam o berço cultural da cidade e são narradores de contos de um bairro, de uma rua e até mesmo de um simples beco.
Uma rua estreita, sem saída e imprópria para o trânsito possui, às vezes, uma riqueza histórica que não está nos livros mas, que trouxe contribuições para a cultura de uma comunidade.
Um bom exemplo é a Travessa Intendente Gravatá, localizada no bairro Nazaré, em Coronel Fabriciano. Um lugar que há quatro décadas conta muitas histórias. Há 44 anos, Maria das Dores Martins deixou a cidade onde morava, Fernandes Estourinho, para tentar ganhar a vida no Vale do Aço. “Quando aqui cheguei não havia uma casa e era tudo pasto. Os moradores utilizavam o trajeto de onde hoje é o beco para chegarem mais rápido à rodovia. Aos poucos foram sendo construídos os barracões em torno da travessa, a cidade cresceu e o beco ficou”, lembra. Dona Maria conta que foi na Travessa Intendente Gravatá que ela criou nove filhos e que agora vê os netos brincarem felizes pelas ladeiras do beco.
O local é privilegiado e a travessa cruza a Rua Duque de Caxias, localizada bem no centro da cidade. Além disso, na década de 80, a zona boêmia do município ficava no bairro Nazaré. O local era conhecido pelos freqüentadores da travessa como “Chiquein”, uma galeria com vários bares.
A famosa travessa também faz parte da vida de outros personagens. D. Joaquina, que hoje tem 44 anos, conta como o beco Gravatá deixou boas recordações na vida dela. “Lembro-me quando havia um forró no beco e até moradores de outros bairros da cidade vinham para dançar e se divertir. Vez ou outra havia algumas brigas, mas nada que tirasse o brilho do local”, conta com nostalgia. Joaquina revelou que conheceu o marido dela naquele beco e que presenciou uma grande amiga ser carregada no colo, pelo noivo, até o altar da igreja.
Entretanto, a Travessa Intendente Gravatá já não é mais a mesma. Atualmente, a criminalidade mancha todo o glamour de outrora. Bêbados perambulam pelo beco e drogados usam o local para o tráfico de drogas. Outro aspecto negativo do beco são as várias construções da década de 1950 que estão em ruínas. Um rico patrimônio histórico de Coronel Fabriciano está, lentamente, sendo destruído pela ação do tempo sem que nada seja feito para recuperá-lo.
Com o objetivo de tentar incentivar as autoridades municipais a preservarem o patrimônio histórico da cidade, o arquiteto Wilkinson Neves, 26 anos, elaborou o projeto Fragmentos Históricos. Neste trabalho ele fotografou as construções mais antigas do município. “Coronel Fabriciano está, aos poucos, se transformando em uma cidade sem cara. Muitos prédios antigos foram derrubados e outros estão completamente abandonados. Há uma forma de fazer construções modernas sem danificar as construções antigas”, observou. O arquiteto disse que pretende promover uma exposição das fotos do projeto para tentar sensibilizar os moradores e as autoridades de Coronel Fabriciano para que não deixem belas histórias, como as vividas na Travessa Intendente Gravatá, se transformarem em poeira.

A cultura de um povo não é feita de aço


Por kleber William

O Vale do Aço é uma região situada no Leste do Estado de Minas Gerais e é formada por 26 cidades. Coronel Fabriciano, Ipatinga, Santana do Paraíso e Timóteo formam a Região Metropolitana do Vale do Aço (RMVA) e outras 22 formam o Colar Metropolitano. As manifestações culturais são inúmeras, entre elas destacam-se o Congado e as Chapeleiras no bairro Cocais, os tapetes artesanais nas ruas do bairro dos Professores, a Festa de Santo Antônio, o Ateliê e Café Cultural (Coronel Fabriciano); o Congado, a Feirarte, os Grupos de Consciência Negra GRUCON e FARROUPILHA (Ipatinga); a Festa de Santana, a Arte Feira e a Festa de Boi Balaio (Santana do Paraíso); os Blocos Caricatos Dexeu falá e Tem Nada a Ver, as Rodas de Capoeira, a Banda de Música Santa Cecília, (Timóteo).
Em Coronel Fabriciano, o congado e as chapeleiras do Bairro Cocais, a marujada do Bairro Mangueiras e a Quadrilha do Pedrinho, são consideradas as mais antigas manifestações da cidade. Recentemente, a ornamentação que os moradores do Bairro dos Professores fazem nas ruas, por ocasião da celebração de Corpus Christi, foi considerada patrimônio cultural.
Maria Cecília Araújo, 63 anos, mora no bairro há 27 anos. Ela conta que os tapetes ornamentais, feito nas ruas, eram preparados apenas com folhagens. Passado alguns anos, os moradores acrescentaram canjiquinha, arroz, trigo, pó-de-café e pó-de-serra.
Todo o material é usado para cobrir as ruas do bairro com desenhos religiosos católicos como o cálice, uvas, o coração de Jesus Cristo, entre outros símbolos que representam a solenidade do Corpo e Sangue de Cristo. Nesta data, os fiéis celebram o Mistério Pascal o Senhor, que segundo a Igreja Católica mina as forças do egoísmo e as transformam em dons de Deus.

“Infelizmente ouço com imensa tristeza algumas pessoas criticarem, por exemplo, a encenação que fazemos na representação da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”, lamenta Maria Cecília.

Já em Santana do Paraíso, além da tradicional Festa de Santana; realizada há mais de 50 anos, várias outras manifestações culturais são realizadas durante o ano. Entre elas, o Grupo de Congado Nossa Senhora do Paraíso, a Festa do Divino, o Boi Balaio. O Projeto Arte e Vida para todos e a Arte Feira completam o calendário cultural da cidade. A Arte Feira é realizada uma vez por mês na praça da matriz, localizada no centro da cidade, onde são divulgados os produtos culturais de diversos artesãos locais, além de uma variedade de comidas e bebidas típicas da região.

Michel Serrabbiamo, representante da classe artística na Comissão Municipal de Incentivo à Cultura (CMIC) de Ipatinga, afirma que “O papel principal da Comissão é avaliar os projetos que buscam receber algum tipo de recurso amparado na Lei de Municipal de Incentivo à Cultura”. Para ele, o Vale do Aço deixou de ser mero consumidor de cultura e passou a ser um pólo criador, sendo o segundo de Minas Gerais.
Em Timóteo, quarta cidade que completa a região, o congado também é uma forte manifestação cultural. O carnaval também tem destaque na cidade. Os blocos caricatos “Dexeu falá” e “Tem nada a ver”, mesmo quando não há desfile durante o carnaval, saem às ruas e mantém uma tradição há mais de 20 anos.
O Centro Cultural de Coronel Fabriciano, o Centro Cultural Usiminas e o Teatro Zélia Olguim, em Ipatinga, a Fundação ArcelorMittal Acesita, em Timóteo, são espaços culturais que complementam com espetáculos a divulgação da cultura do povo do Vale.

Arte como Fonte de Renda

Por Suelln Karla

O Projeto “Artesanato como Fonte de Renda” vem sendo desenvolvido no Estádio Jurandir Ferreira, no município mineiro de Belo Oriente, desde Fevereiro de 2007. O projeto conta com o apoio da Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer da cidade. A idealizadora e coordenadora do projeto é a professora Lúcia Maria de Oliveira, formada em Normal Superior pelo Unileste/MG, além de ter feito cursos de arte, teatro e reciclagem.
O projeto é voltado para os alunos da rede municipal e estadual de ensino e também é aberto para a comunidade. Atualmente, 30 adolescentes e sete mães freqüentam as aulas. A idade mínima para se inscrever é de 12 anos, mas a aluna Gabriela Cristina, de apenas oito anos, é a exceção da turma em função dela ter facilidade em aprender. De acordo com Lúcia Maria, de acordo com o próprio nome do projeto, o objetivo é despertar o interesse pelo artesanato nas pessoas que gostariam de fazer deste aprendizado uma fonte de renda.
O primeiro passo do projeto foi o ensino do teatro para as crianças. As peças eram apresentadas nos bairros e distritos de Belo Oriente. A segunda fase foi desenvolver o trabalho com materiais reciclados, o que chamou mais a atenção dos moradores. Eles aprenderam como reaproveitar objetos que, simplesmente, eram jogados no lixo.
Os alunos estão na terceira fase do projeto que é o ensino das técnicas de pintura em pano. Para algumas mães esta é a melhor parte, pois é a hora de algumas mães começarem a colher frutos do que foi investido no curso. A aluna Maria Aparecida, 29 anos, adora as aulas e para ela o projeto já deu retorno: vendi vários panos de prato e tenho encomendas para os próximos trabalhos, conta sorridente. Ela afirma que o dinheiro que arrecada com as vendas tem ajudado muito na renda em casa.
Para a aluna Maria Lúcia o projeto está sendo uma grande oportunidade. Desempregada, ela acredita que as técnicas aprendidas no curso vão ajudá-la financeiramente. Segundo ela, outro aspecto interessante é que as crianças podem, com o dinheiro obtido nas vendas dos produtos, comprar material de escola. “Inclusive, muitos adolescentes poderiam estar nas ruas se drogando ou algo pior, mas estão aqui aprendendo”, observa.
Todo o material utilizado nas aulas, como tintas, panos, pincéis, entre outros, são comprados pelos alunos. Segundo a professora Lúcia Maria, a próxima etapa será pintura em tela com tinta a óleo. Ela ressalta que esta fase também será uma excelente oportunidade para os alunos, “pois além de gerar lucro, se eles souberem aproveitar o aprendizado, poderão até se tornar artistas plásticos. A professora acredita que saiam do projeto Arte como Fonte de Renda adolescentes e adultos não só ricos em conhecimento, mas, também com uma profissão.
“Aprendo e posso vender meus trabalhos e este projeto é muito bom!”, conta Letícia Dias, de 11 anos. Rayssiane Ruella, 11 anos, também adora as aulas: “em vez de ficar à toa na rua, venho pra cá, aprendo e aproveito bem melhor meu tempo”.Os alunos adoram o projeto e pretendem até ajudar a “Tia Lúcia” nas próximas turmas. Porém, eles lamentam a falta de um espaço apropriado e com melhores condições para as aulas. Lúcia Maria conclui que este projeto representa uma página na história da vida destas pessoas, “escrita por elas mesmas e que se souberem aproveitar esta chance serão grandes profissionais futuramente”.